quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Pode um cristão ficar possuído pelo diabo?


Por Wilson Porte Jr

Quando o espírito imundo sai do homem, anda por lugares áridos, procurando repouso; e, não o achando, diz: Voltarei para minha casa, donde saí.

Lucas 11.24

Pode um cristão ficar possuído por um demônio? Não! Um cristão verdadeiro jamais poderá ser possuído por um espírito imundo. Este é o nome que Jesus dava a tais espíritos que possuíam pessoas ou animais. Sabe-se que nem todos os demônios possuem pessoas, mas alguns o fazem, por motivos não muito claros a nós. O que se sabe vem do bom senso e das palavras dos próprios demônios que não são palavras nada confiáveis.

Em 1Jo 5.18-19, o Espírito Santo nos instrui pela Palavra o seguinte:

Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive em pecado; antes, Aquele que nasceu de Deus o guarda, e o Maligno não lhe toca. Sabemos que somos de Deus e que o mundo inteiro jaz no Maligno.

A primeira informação deste texto é que a pessoa que se converteu não vive mais na prática do pecado. Isso não significa que tal pessoa não peca mais, mas que o pecado, agora, será apenas um acidente na peregrinação de tal pessoa. Antes, o pecado era uma constante, um prazer diário. Agora, apenas um acidente que traz profunda tristeza àquele que o comete.

São tais pessoas, para as quais o pecado traz tristeza e faz parte da batalha do dia a dia, que são chamadas pela Bíblia de “nascidos de Deus”. Para elas, assim como para Deus, o pecado é algo que traz tristeza e, muitas vezes, ódio. É dos cristãos amar o que Deus ama e odiar o que Deus odeia. Alguém que ama o que Deus odeia e odeia o que Ele ama ainda não “nasceu de Deus”, termo usado pelo apóstolo João no verso acima.

E são estes nascidos de Deus que não podem ser tocados pelo Maligno. Tais pessoas são guardadas pelo Espírito. O Espírito Santo de Deus as reveste impedindo qualquer ação demoníaca em tais pessoas. As pessoas convertidas foram seladas com o Espírito de Deus e isso lhes confere até mesmo autoridade sobre espíritos demoníacos.

“O mundo inteiro jaz no Maligno”, ou seja, não há nada neste mundo que esteja fora da ação demoníaca do Maligno. Tudo está sob sua ação e intervenção. Apenas aquilo e aqueles a quem o Senhor deseja guardar são protegidos. Deus está acima do Maligno. Não há rivalidade, ou guerra entre Deus e o Maligno. Há apenas um Soberano: Deus. Mesmo a autoridade do Maligno sobre seres humanos e animais encontra-se debaixo da autoridade de Deus. Ou seja, qualquer palavra de Deus faz com que o Maligno pare na mesma hora o que ele está fazendo e se submeta à autoridade máxima e soberana de Deus.

No entanto, aqueles que não são nascidos de Deus permanecem à mercê da ação destes espíritos imundos. São apenas estas pessoas que podem ficam possuídas por demônios. Um convertido, ou seja, alguém nascido de novo, jamais ficará possuído por outro espírito além do Espírito Santo de Deus.

Para os convertidos, a recomendação é apenas esta: Sujeitai-vos, portanto, a Deus; mas resisti ao diabo, e ele fugirá de vós (Tg 4.7). Devemos apenas resistir às suas tentações. Ele continuará a agir externamente tentando nos seduzir e fazer cair. Cabe a nós resistirmos e fugirmos para que nada roube a nossa paz.


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Fonte: Wilson Porte Jr via Púlpito Cristão.

Na Bíblia do Papa Francisco o Big Bang e Charles Darwin se harmonizam com Deus

Título do G1:Big Bang e Teoria da Evolução não contradizem cristianismo, diz Papa 

O Papa Francisco afirmou nesta segunda-feira (27), durante discurso na Pontifícia Academia de Ciências, que a Teoria da Evolução e o Big Bang são reais e criticou a interpretação das pessoas que leem o Gênesis, livro da Bíblia, achando que Deus "tenha agido como um mago, com uma varinha mágica capaz de criar todas as coisas".

Segundo ele, a criação do mundo "não é obra do caos, mas deriva de um princípio supremo que cria por amor". "O Big Bang não contradiz a intervenção criadora, mas a exige", disse o pontífice na inauguração de um busto de bronze em homenagem ao Papa Emérito Bento XVI.

O Big Bang é, segundo aceita a maior parte da comunidade científica, a explosão ocorrida há cerca de 13,8 bilhões de anos que deu origem à expansão do Universo. Já a Teoria da Evolução, iniciada pelo britânico Charles Darwin (1809-1882), que prega que os seres vivos não são imutáveis e se transformam de acordo com sua melhor adaptação ao meio ambiente, pela seleção natural.

O Papa acrescentou dizendo que a "evolução da natureza não é incompatível com a noção de criação, pois exige a criação de seres que evoluem". Ele criticou que quando as pessoas leem o livro do Gênesis, sobre como foi a origem do mundo, pensam que Deus tenha agido como um mago. "Mas não é assim", explica.

Segundo Francisco, o homem foi criado com uma característica especial – a liberdade – e recebe a incumbência de proteger a criação, mas quando a liberdade se torna autonomia, destrói a criação e homem assume o lugar do criador.

"Ao cientista, portanto, sobretudo ao cientista cristão, corresponde a atitude de interrogar-se sobre o futuro da humanidade e da Terra; de construir um mundo humano para todas as pessoas e não para um grupo ou uma classe de privilegiados", concluiu o pontífice.

[Fonte: G1]

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E você leitor, o que acha desta declaração do Papa? 

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Redirecionando a cosmovisão cristã em um mundo pós-moderno #PODCAST

Fala, cabraiada! Você sabe o que é cosmovisão? Você já ouviu falar que vivemos em tempos pós-modernos? Como podemos passar por esse mundo tão diverso sem corromper a nossa cosmovisão? Então, reunidos na Conferência Mundo, em Guarabira-PB, os cabras, Heder Judson e Ivandro Menezes se reuniram a cabruêra e convocaram Antognoni Misael (A arte de chocar) e o Pb. Jofre Garcia (IPB – Guarabira) para discutir como podemos redirecionar a nossa cosmovisão em um mundo de tantos relativismos. Enfim, dê o play (abaixo) e confira:
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 Fonte: Os Cabra Cast.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

CARTA DE UM PASTOR PROTESTANTE À PRESIDENTE ELEITA

Por Antonio Carlos Costa

Excelentíssima Senhora Presidente da República Dilma Rousseff,

cerca de 54 milhões de brasileiros acabaram de elegê-la presidente do Brasil. Entre esses, número incontável de pobres, que escolheram a senhora e o seu partido em razão do serviço que prestaram à nação, ao fazerem correção histórica de iniquidade com a qual a maioria de nós brasileiros convivíamos sem nos perturbar: a miséria de homens, mulheres e crianças deste país, que desde o período da sua colonização sempre viu com naturalidade pobres invisíveis fazendo o papel de coadjuvantes da vida do rico, servindo-o mediante sistema de exploração descarada, sem falar naqueles que nem ser explorados puderam, por viverem completamente à margem da vida, mendigando o pão.

Na condição de amante da democracia, que representa o estágio mais avançado das concepções políticas da humanidade, uma vez que ainda não foi demonstrado modelo político que mais dignifique o homem do que o governo com o consentimento do governado, assumo o compromisso de estar ao lado de todo aquele que tenciona apoiá-la, torcer pelo seu sucesso e honrá-la na condição de presidente democraticamente eleita.

Considero, contudo, que não seja desrespeitoso e antidemocrático falar do que me causa angústia, perplexidade e apreensão quando penso no país que Vossa Excelência e o seu partido governam há 12 anos. Passo a responder ao convite que a sua coordenação de campanha me fez na semana passada, chamando-me para apresentar as propostas do movimento social que presido.

Presidente Dilma, em seu governo e no do seu antecessor mais de 600 mil pessoas -a maioria esmagadora, pobres-, tiveram a vida interrompida pelo crime. Números de guerra civil. Milhões de brasileiros olham diariamente para o porta retrato de parentes amados que foram arrebatados do seu convívio por terem nascido num país que deixa matar.

Jazem em nossas prisões quase 600 mil seres humanos, vivendo em masmorras medievais, com características de campo de concentração nazista, num país cuja presidente afirma conhecer a dura realidade do cárcere, por já ter passado por ele.

A maior parte do povo brasileiro não passa mais fome, entretanto, vive muito mal. Morando em ruas encardidas e imundas, com esgoto banhando os pés de meninos e meninas pobres, que jogam bola e brincam de boneca disputando espaço com ratazanas. Crescimento econômico não é tudo. Carecemos daquela espécie de desenvolvimento que amplia a liberdade humana, propiciando a parcelas cada vez mais amplas da sociedade poder contribuir para a arte, ciência, literatura, política, esporte. Como alcançar essa plenitude de vida se, por falta de hospitais e médicos, doenças deformam o corpo; e, por falta de acesso a educação de qualidade, a desinformação atrofia o intelecto?

A classe média, que banca o "Bolsa Família" e o "Minha Casa, Minha Vida", trabalha oito, dez, doze horas por dia seis vezes por semana; mas não sem passar quatro horas do seu tempo em trânsito infernal, para ganhar pouco e viver sem razão. Milhões e milhões trabalham apenas para manter a vida biológica, uma vez que não têm tempo para a leitura de bons livros, para o amor, para o contato com a natureza, para o engajamento político, para a prática de um hobby, para o investimento na sua própria vida visando sua ascensão social.

Presidente Dilma, quando será implementando plano visando a queda progressiva de investimento em programas assistencialistas? Não estou pregando o fim do Estado do bem-estar social. O que preocupa aos milhões que não votaram em Vossa Excelência é o fato de a esmola que é oferecida a gente saudável humilhar o pobre, expor seu caráter a deformidades e impedir que contribua para o embelezamento, desenvolvimento e aperfeiçoamento da vida em sociedade. Presidente, quando o pobre encontrará a porta de saída do bolsa família?

Presidente Dilma, não estou aqui para apresentar um programa de governo. Não tenho competência para isso, embora a experiência de campo em trabalhos nas favelas do Rio de Janeiro, no sistema prisional, no sertão nordestino, nos cemitérios levando consolação para parentes de vítima da violência, permita-me expor as falhas do Governo Federal, que reputo como inaceitáveis e desnecessárias, porque temos recursos financeiros, talentos humanos e democracia para sairmos desse estado de pobreza que nos humilha perante os demais povos.

O maior sinal da nossa patologia em termos de políticas públicas -o que precisa ser humildemente reconhecido pelo seu governo-, é, sem sombra de dúvida, o fato de sermos a sétima economia do mundo e o 79º país do planeta em Índice de Desenvolvimento Humano.

Apesar de toda essa sorte de graves problemas sociais, que geram sofrimento para milhões e instabilidade política num país agora bastante dividido, reportagem recente da Folha de S. Paulo (29/09) prova que mais de 40% das promessas que Vossa Excelência fez em 2010 não foram cumpridas até hoje.

Faço um apelo à Vossa Excelência. Apresente ao país -de modo claro que até o brasileiro mais humilde possa entender-, suas metas de governo e prazos para a realização do que foi prometido. Presidente, é fato, provado pela falta de infraestrutura que esteja à altura do poder econômico do nosso país, que o Estado brasileiro precisa ser gerido com mais eficiência -princípio constitucional basilar da administração pública. Como haver eficiência sem mecanismos de avaliação do desempenho do governo? Como fazer aferição do que não pode ser medido? Qual cobrança, contudo, pode ser efetiva se ministros e seus subordinados permanecem nos seus cargos apesar da sua ineficiência?

Assumo o compromisso, perante o meu país, minha família e o Deus a quem sirvo, revelado no evangelho de Cristo, de celebrar cada conquista do seu governo, e apoiá-la em todo esforço de viabilizar a vida humana no Brasil, mas não me calar se o seu governo se resumir a dar comida ao pobre, sem garantir ao todo da população, a começar pelos excluídos, o direito à educação, à saúde, ao trabalho, ao lazer, à segurança e à vida.

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Antonio Carlos Costa é pastor presbiteriano, presidente da Ong Rio de Paz.

sábado, 25 de outubro de 2014

O que aconteceu com os evangélicos?

Por Augustus Nicodemus Lopes

Quando Paulo Romeiro escreveu Evangélicos em Crise em meados da década de 90, ele apenas tocou em uma das muitas áreas em que o evangelicalismo havia entrado em colapso no Brasil: a sua incapacidade de deter a proliferação de teologias oriundas de uma visão pragmática e mercantilista de igreja, no caso, a teologia da prosperidade.

Fica cada vez mais claro que os evangélicos estão atualmente numa crise muito maior, a começar pela dificuldade – para não falar da impossibilidade – de ao menos se definir hoje o que é ser evangélico.

Até pouco tempo, “evangélico” indicava vagamente aqueles protestantes de entre todas as denominações – presbiterianos, batistas, metodistas, anglicanos, luteranos e pentecostais, entre outros, que consideravam a Bíblia como Palavra de Deus, autoritativa e infalível, que eram conservadores no culto e nos padrões morais, e que tinham visão missionária.

Hoje, no Brasil, o termo não tem mais essa conotação. Ele tem sido usado para se referir a todos os que estão dentro do cristianismo em geral e que não são católicos romanos: protestantes históricos, pentecostais, neopentecostais, igrejas emergentes, comunidades dos mais variados tipos, etc.

É evidente a crise gigantesca em que os evangélicos se encontram: a falta de rumos teológicos definidos, a multiplicidade de teologias divergentes, a falta de uma liderança com autoridade moral e espiritual, a derrocada doutrinária e moral de líderes que um dia foram reconhecidos como referência, o surgimentos de líderes totalitários que se auto-denominam pastores, bispos e apóstolos.

A conquista gradual das escolas de teologia pelo liberalismo teológico, a falta de padrões morais pelos quais ao menos exercer a disciplina eclesiástica, a depreciação da doutrina, a mercantilização de várias editoras evangélicas que passaram a publicar livros de linha não evangélica, e o surgimento das chamadas igrejas emergentes. A lista é muito maior e falta espaço nesse post.

Recentemente um amigo meu, respeitado professor de teologia, me disse que o evangelicalismo brasileiro está na UTI. Concordo com ele. A crise, contudo, tem suas raízes na própria natureza do evangelicalismo, desde o seu nascedouro.

Há opiniões divergentes sobre quando o moderno evangelicalismo nasceu. Aqui, adoto a opinião de que ele nasceu, como movimento, nas décadas de 50 e 60 nos Estados Unidos. Era uma ala dentro do movimento fundamentalista que desejava preservar os pontos básicos da fé (veja meu post sobre Fundamentalismo), mas que não compartilhava do espírito separatista e exclusivista da primeira geração de fundamentalistas.

A princípio chamado de “neo-fundamentalismo”, o evangelicalismo entendia que deveria procurar uma interação maior com questões sociais e, acima de tudo, obter respeitabilidade acadêmica mediante o diálogo com a ciência e com outras linhas dentro da cristandade, sem abrir mão dos “fundamentos”.

Eles queriam se livrar da pecha de intransigentes, fechados, bitolados e obscurantistas, ao mesmo tempo em que mantinham doutrinas como a inerrância das Escrituras, a crença em milagres, a morte vicária de Cristo, sua divindade e sua ressurreição de entre os mortos. Eram, por assim dizer, fundamentalistas esclarecidos, que queriam ser reconhecidos academicamente, acima de tudo.

O que aconteceu para o evangelicalismo chegasse ao ponto crítico em que se encontra hoje? Tenho algumas idéias que coloco em seguida.

1. O diálogo com católicos, liberais, pentecostais e outras linhas sem que os pressupostos doutrinários tivessem sido traçados com clareza. Acredito que podemos dialogar e aprender com quem não é reformado. Contudo, o diálogo deve ser buscado dentro de pressupostos claros e com fronteiras claras. Hoje, os evangélicos têm dificuldades em delinear as fronteiras do verdadeiro cristianismo e de manter as portas fechadas para heresias. 

2. A adoção do não-exclusivismo como princípio. Ao fazer isso, os evangélicos começaram a abrir a porta para a pluralidade doutrinária, a multiplicidade de eclesiologias e o relativismo moral, sem que tivessem qualquer instrumento poderoso o suficiente para ao menos identificar o que estivesse em desacordo com os pontos cruciais.

3. O abandono gradual da aderência a esses pontos cruciais com o objetivo de alargar a base de comunhão com outras linhas dentro da cristandade. Com a redução cada vez maior do que era básico, ficou cada vez mais ampla a definição de evangélico, a ponto de perder em grande parte seu significado original.

4. O abandono da confessionalidade, das grandes credos e confissões do passado, que moldaram a fé histórica da Igreja com sua interpretação das Escrituras. Não basta dizer que a Bíblia não tem erros. Arminianos, pelagianos, socinianos, unitários, eteroteólogos, neopentecostais – todos afirmarão isso.

O problema está na interpretação que fazem dessa Bíblia inerrante. Ao jogar fora séculos de tradição interpretativa e teológica, os evangélicos ficaram vulneráveis a toda nova interpretação, como a teologia relacional, a teologia da prosperidade, a nova perspectiva sobre Paulo, etc.

5. A mudança de uma orientação teológica mais agostiniana e reformada para uma orientação mais arminiana. Isso possibilitou a entrada no meio evangélico de teologias como a teologia relacional, que é filhote do arminianismo. Permitiu também a invasão da espiritualidade mística centrada na experiência, fruto do reavivalismo pelagiano de Charles Finney. 

Essa mudança também trouxe a depreciação da doutrina em favor do pragmatismo, e também o antropocentrismo no culto, na igreja e na missão, tudo isso produto da visão arminiana da centralidade do homem.

Mas talvez o pior de tudo foi a perda da cosmovisão reformada, que serviria de base para uma visão abrangente da cultura, ciência e sociedade, a partir da soberania de Deus sobre todas as áreas da vida. Sem isso, o evangelicalismo mais e mais tem se inclinado a ações isoladas e fragmentadas na área social e política, às vezes sem conexão com a visão cristã de mundo.

6. Por fim, a busca de respeitabilidade acadêmica, não somente da parte dos demais cristãos, mas especialmente da parte da academia secular. Essa busca, que por vezes tem esquecido que o opróbrio da cruz é mais aceitável diante de Deus do que o louvor humano, acabou fazendo com que o evangelicalismo, em muitos lugares, submetesse suas instituições teológicas aos padrões educacionais do Estado e das universidades.

Padrões esses comprometidos metodológica, filosófica e pedagogicamente com a visão humanística e secularizada do mundo, em que as Escrituras e o cristianismo são estudados de uma perspectiva não cristã. Abriu-se a porta para o velho liberalismo.

Não há saída fácil para essa crise. Contudo, vejo a fé reformada como uma alternativa possível e viável para a igreja evangélica brasileira, desde que se mantenha fiel às grandes doutrinas da graça e aos lemas da Reforma, e que faça certo aquilo que os evangélicos não foram capazes de fazer:

(1) dialogar e interagir com a diversidade delineando com clareza as fronteiras do cristianismo; 

(2) abandonar o inclusivismo generalizado e adotar um exclusivismo inteligente e sensível;

(3) voltar a valorizar a doutrina, especialmente os pontos fundamentais da fé cristã expressos nos credos e confissões, que moldaram os inícios do movimento evangélico.

Talvez assim possamos delinear com mais clareza os contornos da face evangélica em nosso país.


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Augustus Nicodemus Lopes é um dos mais respeitados teólogos brasileiros. Seus textos podem ser lidos no excelente blog O Tempora, O Mores! Via Púlpito Cristão.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Marcos Almeida, o movimento gospel e a arte no mundo

Por Antognoni Misael

Desde a primeira vez que ouvi Marcos Almeida logo percebi que ele não cabia dentro do movimento gospel. Ficava a incógnita em saber como um artista que surgira no palco evangélico citando Keith Green, Rookmaaker, Sartre, Rembrandt e cantando profeticamente “Todos estão surdos” (do Roberto Carlos) se comportaria no desdobrar do tempo perante este segmento. 

Atualmente ficou mais do que claro que o Marcos Almeida está à frente da música gospel. A frente porque entendeu assim como Rookmaaker que “as coisas têm valor por aquilo que são, e não pelas funções que exercem, por mais que estas sejam importantes.” É muito parecido com o conceito de arte de Francis Shaeffer, o qual propõe a arte pela arte, e tendo a mesma como uma dádiva de Deus, faz com que não se rotule o que é essencial, não se “guetifique” o que é livre, e enfim, com que ela não se reduza aos mecanismos de mercado, e ao fim, apenas publicitário e evangelístico. 
“Existe uma outra forma de enxergar a fé, a espiritualidade e a arte no Brasil – e não necessariamente tem uma direção para o consumo interno da igreja (...) pra tocar no culto ou pra fazer um entretenimento religioso. Mas é profundamente cristã, profundamente relacionado com a fé, mas usa outras linguagens. Usa uma linguagem mais poética, não só isso, usa o português (...) e não em (o) ‘evangeliquês’ ”. [Marcos Almeida]
É indispensável compreendermos que devemos usar nossos talentos para a glória daquele que nos presenteou (1Co 10.31). Rookmaaker vem nos dizer que o convite para arte é um chamado aos artistas, artesãos e músicos para que estes esmerem-se no ofício em que foram chamados; que estes chorem, orem, pensem e trabalhem na arte e por ela. Para ele, qualquer discussão sobre o papel dela deve ser precedida por uma afirmação básica: “a arte não precisa de justificativa” — nem por motivos religiosos ou propósitos evangelísticos, nem por fins econômicos ou políticos. A arte é livre e deve ter sua premissa básica de que é um reflexo pleno da criatividade do Criador!

O que temos presenciado nos dias de hoje é um fenômeno de mero mercado com autenticação gospel - é o genérico comercial do “mundo”. Vemos muitos do movimento gospel portando-se como sumos sacerdotes da cultura — os nossos gurus —, ou como celebridades e bobos da corte. Desta forma, como esperaremos uma arte de valor eterno com a versatilidade de temas e validades do nosso tempo atual, quando na verdade o que determina o “sucesso ministerial” é a adesão à um modismo ou a rendição a um apelo comercial?
“Então a fé ela não é um colar que você coloca assim (...) um artefato pra te deixar um pouco mais bonito, pra te tornar mais agradável para um mercado religioso. A fé pra gente é um começo; é aquilo que trabalha lá no coração e ensina a gente a olhar o mundo diferente.” [Marcos Almeida] 
Nesta roda viva é como se a música gospel não parasse de encher sua botija de ouro, contudo, sempre querendo dar justificativas de que o que faz é de Deus apenas por carregar o nome “Cristo” ou “Deus”.

Presumo então que fazer música cristã não significa necessariamente produzir uma música com mensagem bíblica explícita ou com uma experiência de vida, fé ou ato piedoso. A “Paixão de São Mateus”, de Bach, é cristã, os “Concertos de Brandenburgo” o são. Logo, não são apenas as letras das cantatas que são cristãs, mas também toda instrumentação e toda diversidade de temas oportunos. Do contrário, estaremos reduzindo o cristianismo e excluindo do comprometimento com Deus uma grande parte de nossa vida, que deve manifestar o fruto do Espírito.

Que a arte seja a nossa expressão do Cristo todo, da vida toda, para que a vida toda seja compreendida através do Cristo em tudo!

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Antognoni Misael, editor do Arte de Chocar.