25
set

A decadência na Música Popular e a Empinadinha dos “Safadões”

por: Antognoni Misael


A indústria cultural se instalou. A arte se prostituiu. O comércio dominou. Aonde vai parar a música no Brasil? Eita… Até que rimou né? Mas é a pura verdade, acredite! Estamos numa decadência existencial em um campo da música popular.

Em nosso país há um mercado da musical sujo, malicioso, vulgar, pernicioso, pornô… Mas, antes de conversarmos, dá só uma olhadinha neste vídeo abaixo.

São canções como esta que embalam o som do Nordeste do Brasil e que invadem o sul do país. Não é só isso, esses carinhas (Wesley Safadão, e o Léo Santana) são recordistas de popularidade nos shows de noitadas e carnavais fora de época pelo Brasil a fora.

Numa argumentação fundada na premissa Educação, por vezes deferi críticas a canções como esta, mas o interessante é que muita gente até balançava suas cucas concordando com a futilidade e nocividade desse repertório dizendo NÃO, mas ao ouvir o “batidão” já rebolavam seus quadris dizendo SIM. O que percebi é que: há uma espécie de ‘farisaísmo musical’ que se estabelece dia a dia no Brasil por parte de muitos consumidores.

Mas ouvir e dançar um repretório do “Parangolé, do “Safadão” ou algo do tipo não é “privilégio” dos incautos. Pelo contrário, muita gente dita “esclarecida”, de classe média e alta, ricos, profissionais liberais, gostam da coisa. A sujeira cultural virou um câncer que têm vitimado todas as classes, e principalmente a juventude atual. Vejam as universidades que um dia foram palco das canções de protesto e compare com as de hoje e seus estudantes. Um grande exemplo são as tais “noites das calouradas” promovida por universitários. É muito comum encontrar, em massa, alunos de Direito, Medicina, História, Psicologia, Letras, Engenharia, dentre tantos, ao som de “Ai se eu te pego”, “Assim você mata o papai”, “Bicicletinha”, “Empinadinha”, ou algo dessa laia. São coisas que sinceramente eu não entendo! Se por um lado a turma guarda um lado do cérebro para um bom currículo profissional, reserva o outro para a decadência existencial.

Perdoe-me os termos, mas, um país onde grande parte dos “esclarecidos” adora dar uma empinadinha com as suas nádegas, certamente no período de eleição usará elas para outra coisa… Veja que país contraditório!

O que ocorre é uma “desqualificação de expressão”, se assim posso chamar, aos próprios valores alicerçados no bem comum. Quando a Constituição Federal no seu artigo 5º, inciso IX diz que “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” certamente ela é generosa com estes caras do mercado da “poesia melada”, de modo que não sei onde qualificar tal expressão diante do previsto em lei. Veja parte da expressão musical: Empinadinha, em seguida me respondam.

“A gata endoidou e deu uma empinadinha em mim
A gata endoidou e deu uma empinadinha em mim
Empina em mim empina empina empina em mim
Empina em mim empina empina empina em mim

Agora eu endoidei e também vou fazer com ela
Agora eu endoidei e também vou fazer com ela

Empina nela empina empina nela
Empina nela empina empina nela
Empina nela empina empina nela

Ei ei ei, olha o som !
Ei ei ei, olha o som !
Visse visse que tá bom, visse visse que tá bom
Ei ei ei olha o som
Ei ei ei, olha o som !
Visse que tá bom, visse que tá bom

Relaxa o som já tá ligado
Quando começa tocar ninguém fica parado
Relaxa o som já ta tocando
Homens e mulheres já tão tudo se pegando (…)

A gata endoidou e deu uma empinadinha em mim
A gata endoidou e deu uma empinadinha em mim
Empina em mim empina empina empina em mim
Empina em mim empina empina empina em mim

Agora eu endoidei e também vou fazer com ela
Agora eu endoidei e também vou fazer com ela
Empina nela empina empina nela
Empina nela empina empina nela”

E aí, pra você uma expressão como essa acima é atividade intelectual, artística, científica ou de comunicação? Quanta generosidade do artigo 5º não é?!

Não sou contra a censura. Mas sou totalmente a favor da organização e distribuição da expressão. Ninguém é proibido de pintar um quadro, fazer uma arte de grafite, contanto que a faça em local propício. Caso alguém saia pintando tudo quanto é prédio, casa, muro, local público ou particular certamente será detido e responderá judicialmente por crime ou contravenção. Da mesma forma, ninguém é privado de fazer suas necessidades fisiológicas, contanto que a faça em local apropriado, do contrário ninguém defeca no meio da praça não é?

Mas alguém vem e diz que “Empinadinha” não é nada demais, é mercado; compra quem quer, ouve quem quer. Tudo bem. Mas, penso eu que, ninguém compra pênis de borracha em livraria, não é? Há repartições específicas para mercados específicos. Neste caso, acho que já está mais do que na hora de separar o joio do trigo na música feita no Brasil.

Por tudo se tornar mercadoria há quem justifique a baixaria sonora em nome de um mercado informal que sustenta famílias pobres – em detrimento, ao contrário, de um empobrecimento educativo, cultural de uma massa consumidora. Fato!

Mas, o que mais me enoja nesta vertente é que, quem melhor sabe sacanear, melhor venderá! É a máxima do “quem é sujo, suje-se mais”!

Por fim, a “música melada” já nos deu prova de que não é desorganizada não. Há um mercado próspero que envolve estúdios, gravadoras, bebidas, grifes, rádios, fábricas de CD’s, empresas, casas de show, política, canais de TV, etc. Ao que parece é uma engrenagem que já funciona muito bem no país e a cada dia ganha público e espaço no mercado…Mercado, melado, malvado, marcado, safado…

Contudo, não vou esculachar somente o mercado. Como diria Ariano Suassuna, “a ‘desculhambação’ não é culpa exatamente das bandas, ou dos empresários que as financiam, já que na grande parte delas, cantores, músicos e bailarinos são meros empregados do cara que investe no grupo. O buraco é mais embaixo”, tão embaixo que não há empinadinha do mundo que  nos escape desse “hades musical” que a música popular se encontra.

***

Antognoni Misael, Editor do Arte de Chocar.

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3 respostas para “A decadência na Música Popular e a Empinadinha dos “Safadões””

  1. Bilo disse:

    Concordo em gênero, gral e número. Mas tenho que dizer que isso não mudará, a tendência é piorar mais e mais, infelizmente! Eu, as vezes, tento imaginar como será a letra das músicas daqui a uns 10 anos, a coisa vai deixar de ser duplo sentido ou apenas insinuação e vai ser real. Vamos presenciar uma grande baixaria pornográfica. É oque o SAFADÃO adverte!

  2. Ikeda disse:

    … eu também concordo. Mas ainda acredito numa mudança: verifico, por exemplo, o crescimento da TV por assinatura na classe BC – houve aumento na renda do brasileiro, mas ninguém é obrigado a assinar TV, se assina é porque não está satisfeito com a programação da tevê aberta. Sou otimista e faço a minha parte. Eu acredito que isso também mude no rádio.

  3. Amanda Maria disse:

    Realmente, algo precisa ser feito. Do contrário, daqui há 10 anos o repertório popular estará restrito a músicas tribais. Se o poder público fizesse, pelo menos, uma classificação indicativa de idade já diminuiria a influência desde cedo no gosto das crianças.

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