10
mai

A Guerra pelas Palavras

por: Rodrigo Ribeiro


guerraAs palavras são essenciais na comunicação. Nem todos tem aflorado o dom da mímica, de modo que se fossemos depender da linguagem não-verbal, muitos seriam encerrados no cativeiro da ignorância e grandes ideias iriam se perder em meio a gestos não compreendidos. Mas o perigo da dissonância entre a mensagem falada e a recebida também afeta o mundo das palavras, e o problema muitas vezes começa no conceito delas próprias.

Na teologia isto também acontece e não é de hoje. Na época em que eclodiu a reforma protestante, houve uma questão inevitável: qual era a igreja verdadeira? A igreja católica ou as novas igrejas protestantes? Para responder esta pergunta ambos os grupos se valeram das mesmas palavras, fazendo referência aos antigos credos, indicando que teriam as marcas da verdadeira igreja: unidade, universalidade, apostolicidade e disciplina.

Ocorre que enquanto a Igreja Romana afirmava que era universal porque estava, como instituição, em expansão por todo o mundo, e era apostólica porque o papa era o sucessor direto de Pedro, a igreja reformada, afirmava que sua universalidade consistia no fato de que a igreja não se vincula a nenhuma nação ou povo, mas era composta pelos eleitos, de todos os povos, lugares e épocas, e que era apostólica porque tinha como fundamento a doutrina dos apóstolos.

Apesar da confusão semântica os reformadores entenderam a importância destas palavras e não abdicaram de usá-las, lutando para que ficasse revelado o seu correto significado. No entanto esta não é a postura de muitos em nossos dias, pois assim como em vários outros períodos na história da igreja, ensinamentos errados e heréticos tem invadido nossos templos e tem levado ao cativeiro palavras preciosas, mas a nossa postura tem sido diferente dos homens do passado. Temos perdido a partida por W.O. Consentimos com o rapto e assim nos tornamos cúmplices deste delito!

A doutrina da prosperidade se difunde no evangelicalismo brasileiro, e nós simplesmente, a fim de evitar qualquer associação com estes pensamentos, largamos mão desta palavra bíblica, fugindo dela ao máximo, entregando-a de mãos beijadas aos salteadores, esquecendo que ela faz parte da revelação de Deus nas suas escrituras, e por isso não podemos abandoná-la. A verdadeira prosperidade, que é a satisfação em Deus (Salmo 16:11), a alegria com contentamento (1 Tm .6-8), não pode desaparecer de nossos púlpitos. Devemos resgatá-la e proclamá-la sem medo, purificando o conceito e afastando de todo o materialismo mundano. Imagina o desastre que seria se em decorrência da extorsão provocada por homens impiedosos, excluíssemos do nosso meio o dízimo e as ofertas? O pecado de terceiros não nos dá permissão para omitir as verdades da palavra de Deus.

A mesma situação ocorre com palavras como vitória e promessas, que já tão desgastadas e violadas pelo discurso triunfalista barato, de um evangelho antropocêntrico, que visualiza Deus como um grande e poderoso amuleto para obter as benesses materiais e emocionais desejadas. Mas estes desvios não nos autorizam a expulsar de nossos arraiais estas palavras! O cristão é vitorioso em Cristo (1 Co 5:17), aliás é mais do que vencedor (Romanos 8:37), e a sua vitória é maior e melhor que qualquer situação existencial: nossa vitória é escatológica, no final de tudo, venceremos com Cristo ! Esta verdade não pode ser guardada ou evitada, assim como não podemos negligenciar as maravilhosas promessas de Deus que nada tem a ver com profetadas humanas, mas que são verdadeiros mananciais bíblicos de esperança e paz, como por exemplo a maravilhosa promessa que ele estaria conosco até a consumação dos séculos (Mateus 28:20), que todas as coisas cooperam para o nosso bem (Rm 8:28) e que se confessarmos o nosso pecado ele irá nos perdoar (1 João 1:9). Aqueles que desejam promessas menores que esta, feitas apenas por homens, que fiquem com elas, mas não privemos o povo de Deus de ouvir as promessas genuínas e inigualáveis da parte de Deus!

Existem outros casos que podem ser citados, como a equivocada aversão dos recém-convertidos ao calvinismo com a palavra escolha, não percebendo que esta doutrina não anula a decisão do homem, mas afirma que esta sempre será na direção oposta a Deus, se o Espírito não o vivificar. Esta é uma postura que é compreensível quando se trata de neófitos, mas é completamente descabida àqueles que já trilham há muito tempo no percurso das doutrinas da graça. Eis mais um exemplo de palavras que devem ser retirados do exílio.

Enfim, que possamos olhar para o exemplo dos reformadores e de tantos outros cristãos comprometidos com a ortodoxia ao longo da história, que combaterem as heresias, mas que não abandonaram as palavras que o próprio Deus usou, as deixando na boca dos lobos vorazes e dos tolos teológicos. As palavras são importantes, pois é a través dela que o evangelho é proclamado. Resgatemo-nos para Deus, restaurando seu significado real e glorificando nosso Pai sem perder a guerra que começa no dicionário e termina na vida espiritual.

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Rodrigo Ribeiro é lá da capital da Borborema, Campina Grande-PB; integrante do Blog da UMP da Quarta, Bacharel em Direito e amigão nosso.

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11
abr

O Susto de Ana Maria

por: Rodrigo Ribeiro


mais-voce-receitas-de-hoje-com-ana-maria-bragaNo programa matinal Mais Você do dia 02 de Abril de 2013, após uma matéria sobre as finanças do lar e qual dos conjugues exercia o controle sobre o dinheiro, a apresentadora Ana Maria Braga passou a perguntar à sua equipe de produção acerca de como se dava esta relação nos relacionamentos destes.

Após algumas respostas, a apresentadora decidiu entrevistar um dos funcionários de mais idade, a fim de saber como pessoas casadas há muitos anos lidam com a questão das finanças do lar e foi neste instante que ela foi surpreendida: o membro da produção entrevistado era recém-casado, mais especificamente a 9 meses, e estava em seu oitavo casamento. As expectativas de sua pergunta foram frustradas, pois aquele senhor de idade não cultivava mais um relacionamento duradouro, como podia aparentar.

De fato, não posso dizer ao certo o quanto Ana Maria se surpreendeu com aquilo, pois na sociedade em que vivemos tal descaso com o matrimonio, para nossa vergonha, não tem sido algo tão raro. É bastante comum o acumulo de divórcios consecutivos assim como uma infinita gama de novos casamentos, numa espécie de loteria desenfreada em busca de uma felicidade conjugal utópica, egoísta e inalcançável.

O desprezo as recomendações bíblicas, como por exemplo as encontradas em Efésios 5:22-28 e1 Pedro 3:7, aliados à expectativas infantis e irreais, são a causa visível da ruptura com o conceito de divino do casamento como uma aliança que não pode ser desfeita, uma união indissolúvel. Mas na sociedade de mercado em que vivemos, onde até mesmo as relações afetivas são vistas como produtos que podem ser trocados ou devolvidos, não há espaço para nada que seja eterno.

O susto maior não deve pertencer aqueles vivem segundo o curso deste século, com suas mentes obscurecidas, mas nós, povo de Deus, é que devemos ficar perturbados diante de tamanha distorção, que muitas vezes invade as portas de nossos templos.

E esta reflexão merece ainda um aprofundamento: ao ser questionado acerca de sua conduta, o homem ainda alegou que na sociedade de hoje as pessoas namoram como se estivessem casados, mas no entanto dormem em casas separadas, e ele optou por casar de uma vez ao invés de namorar ou noivar. Neste sentido, ele não está completamente errado. Os relacionamentos “pré-casamento” tem roubado elementos que pertencem tão somente àquele, e não digo isto somente com relação ao sexo, mas também a certas intimidades sentimentais e obrigações e deveres que só pertencem aqueles que são cônjuges.

O escândalo de condutas como esta deve nos levar a refletir sobre a desvalorização do sagrado vínculo conjugal, mas também deve nos exortar a respeito dos relacionamentos que temos cultivados antes do enlace matrimonial, como namoro e noivado, pois muitas vezes estes nomes são apenas camuflagens para verdadeiros casamentos irregulares, em oposição frontal à vontade revelada de Deus. Ainda que o mundo caminhe cada vez mais neste tipo de conduta, a igreja de Cristo não pode se conformar com isto e deve andar de forma a revelar os valores eternos do Reino de Deus, os valores da imutável Palavra de Deus.

Se nós não nos assustamos ao se deparar com este quadro terrível, talvez nosso coração esteja menos sensível do que o da própria Ana Maria Braga, o que é bastante sério e preocupante. O problema é que igreja tem se acostumado a ser um simples Louro José a repetir os ensinamentos torpes que o mundo propaga. Isso precisa mudar.

Deus nos ajude.

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Rodrigo Ribeiro é colunista da UMP da Quarta, bacharel em Direito e músico. Além disso é um amigão e irmão em Cristo.

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05
set

Estão julgando o Mensalão. E eu com isso?

por: Rodrigo Ribeiro


Desde o mês de Agosto, o julgamento da ação penal 470, que tramita no Superior Tribunal Federal, vem causando bastante repercussão. Isto se deu a partir de uma ampla divulgação de todos os atos deste julgamento, que trata do que se convencionou chamar do caso “mensalão”, grande escândalo político que eclodiu entre os anos 2005 e 2006, no governo do presidente Lula, do Partido dos Trabalhadores. Diante da amplitude deste fato jurídico-político, muitos se envolvem, procuram debater o assunto e participar deste momento histórico, mas outros ficam alheios a isto tudo, como se estivessem perguntando-se: e eu com isso?

Antes de responder esta pergunta retórica, algumas considerações precisam ser feitas: este julgamento é sim um marco na história de nossa república. Seja pela magnitude da engrenagem que fora revelada, seja pelo tamanho do processo, pois os autos da AP 470 são compostos de 235 volumes e 500 apensos, somando cerca de 50.508 folhas, com 38 réus. De fato, este momento histórico é mais uma página importante de nossa recente democracia. No entanto, seria ingenuidade pensar que neste julgamento, a partir de uma sentença condenatória, seria extirpado de nossa sociedade o ranço pernicioso da corrupção, que a moralidade reinaria em nosso processo político-eleitoral e todos viverão felizes para sempre.

Esta ideia messiânica do julgamento, assim como dos ministros (vide a imagem de herói que tem pairado sobre alguns deles), não se adequa a uma leitura sincera de nossa realidade, haja vista que a corrupção não se veste apenas de vermelho, nem usa somente as vias abertas pelo “mensalão” para se propagar. Ela está ali, presente em todos os poderes, nas licitações, nos concursos fraudulentos, etc. Nós cristãos, que conhecemos o estado na da natureza humana pós-queda, assim como o efeito ampliador que o poder costuma causar naqueles que o possuem, não podemos seguir este caminho ilusório. Devemos sempre nos manter alerta, sem idolatrar qualquer político, partido ou qualquer ideologia. A nossa função profética, nos impõe uma distância que nos permita uma avaliação crítica segura, de todos os que governam, tanto situação e oposição, seja qual for a sua cor partidária.

Diante desta análise otimista, porém realista, precisamos refletir o nosso papel dentro desta tela que se desenhou: estaríamos de fora, somente contemplando, ou também somos partícipes? Uma das causas deste esquema, além de avidez dos homens por poder e dinheiro, se encontra no financiamento das campanhas, que dá vazão ao caixa 2, e vários outros procedimentos ilegais. Neste instante, devemos perceber nosso papel em todo este enredo. As campanhas caras, a compra de voto, ou a troca deste por favores pessoais, tudo isto são pequenas notas que por fim acabam se ampliando e formando a orquestra da corrupção. Quando escolhemos maus representantes, por conta de interesses ilegítimos e tão somente particulares, somos corresponsáveis pelos atos que estes praticam. Uma ação penal com 38 réus pode parecer algo espantoso, mas a bem da verdade, todos os que vendem o seu voto, e traem a sua consciência no período eleitoral, deveriam figurar no polo passivo desta ação.

Todo este julgamento deve produzir uma profunda reflexão em nós, como eleitores, e principalmente como cristãos. Não devemos confiar de maneira cega e idolatra em nenhum político, e principalmente, não devemos negociar o nosso voto. Devemos valorizá-lo, sabendo que seremos responsáveis pelos desmandos praticados em nosso nome. Reconhecer que temos tudo haver com o “mensalão” é o primeiro passo para construirmos uma nova visão política, pautadas em valores elevados do Reino de Deus, que visem o bem-estar da sociedade como um todo.

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Rodrigo Ribeiro é graduado em Direito, escreve na UMP da Quarta e é parceiro do Arte de Chocar.

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10
jul

Entre a Cruz e o Cangaço

por: Rodrigo Ribeiro


“O Padre Amâncio estava ali no Açu porque amava a Deus. Ouvira D. Eufrásia dizendo: “Se Amâncio quisesse já era Bispo, um grande, um príncipe.” E não. Ficava no Açu para aguentar aquele povo, aquela gente. Montava a cavalo para andar seis léguas com o tempo que houvesse (…) para salvar uma alma das profundezas do inferno. Se não fosse ele, teria fugido com Dioclécio, teria fugido com homem mais feliz do mundo. O que anda pela terra, o que amava mulheres lindas e vira um milagre, uma força de Deus se exercendo. Antônio Bento vacilava assim entre o Padre Amâncio e o mundo que Dinoclécio descobrira.”.

REGO, José Lins do. In: Pedra Bonita. 14.ed. Rio de Janeiro, RJ: José Olympio, 2010, pp. 82.

Antônio Bento, protagonista desta obra do paraibano José Lins do Rêgo, foi criado pelo amoroso, piedoso, altruísta e dedicado Padre Amâncio. Aquele homem sempre foi seu referencial de abnegação, amor a Deus e ao próximo. Realmente, este personagem ainda que fictício tem traços admiráveis de devoção e compaixão. Narra o autor que ele poderia ter ascendido na hierarquia, tornando-se se Bispo, mas preferiu continuar na pequena cidade, sofrendo com e por aquelas pessoas.

Entretanto, certo dia, o jovem se depara com um forasteiro, um cantador, cangaceiro, que narra histórias incríveis, recheadas de aventuras, mulheres, milagres, e tudo num ritmo alucinante e poético. Uma vida livre e libertina. Neste instante o referencial do jovem é abalado. Ele passa a admirar aquele homem, até mesmo em confronto com a imagem criada ao redor do Padre. O cantador Dinoclécio abalou o referencial do jovem Bento. Este é o dilema desenhado no trecho do livro transcrito.

Esta perola literária nos fala profundamente a respeito de nossa natureza humana, que parece se encantar mais com aventuras libertinas, coisas vãs que nada contribuem para o crescimento de outros, do que com o sacrifício pessoal, a humildade e o altruísmo sem vaidade. É natural que o mundo, corrompido em seus pecados, não valorize e trate como tolo aquele que atenta para as palavras de Paulo: “Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros”. (Filipenses 2:4). No entanto, esta atitude é absolutamente equivocada para um cristão, que deve valorizar muito mais homens santos, simples e humildes, do que aqueles que se chafurdam no lamaçal do egoísmo e da vaidade, sendo bem quistos no contexto social, mas reprovados por Deus no seu modo de agir. Neste sentido, devemos sempre nos lembrar de nosso Mestre Jesus, que se humilhou por nós, tomando a forma de servo e sujeitando a morte de cruz em nosso favor (Fl. 2:5-11).

Além disso, podemos observar também o fascínio que temos pelas coisas novas, em detrimento daquilo que é antigo, mas é sempre válido e atual. Nossa sede por novidades pode nos impulsionar, facilmente, a sair dos trilhos da verdade, e enveredar por caminhos atraentes, mas que na verdade são apenas areias movediças.

Por fim, ainda podemos notar que, assim como o jovem Pedro Bento, muitas vezes pensamos e agimos como se a felicidade estivesse na satisfação de nossos desejos egoístas, em viver de forma livre, sem obrigações ou deveres morais, um verdadeiro “cangaço da vontade”, até mesmo invejando os que vivem de forma promiscua, libertina e sem qualquer pudor. Nestes momentos passamos longe da real satisfação plena e perpetua que em está em Deus. Já dizia o salmista: Tu me farás conhecer a vereda da vida; na tua presença há plenitude de alegria; à tua mão direita há delícias perpetuamente. (Salmo 16:11)

Que esta reflexão abra nossos olhos para que valorizemos sempre aqueles que são piedosos, ainda que não populares e glamorosos; aqueles que estão arraigados em valores antigos e eternos, ainda que o mundo os considere ultrapassados e anacrônicos; e saibamos que a nossa alegria não está na satisfação dos desejos meramente carnais, no nosso egoísmo, na nossa lascívia e no desejo insaciável de novas aventuras, mas sim, encontramos a plena satisfação em Deus. Que possamos dizer como o profeta: “me alegrarei no SENHOR; exultarei no Deus da minha salvação” (Habacuque 3:18).

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Rodrigo Ribeiro é aluno de Direito, músico e blogueiro. Escreve na UMP da Quarta. (Abração mano…e cuidado com a maçã! rs)

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