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Sanctus Delirious
por: Jofre Garcia
- Igrejas!! Igrejas!! Meu reino por uma Igreja!
- Igrejas!! Igrejas!! Uma Igreja do Reino!
Gritava o sujeito nas ruas com uma Bíblia mão. Apesar de toda algazarra pouca atenção atraia. Até que um passante, indiferente, mas querendo sossego, protestou:
- Pra quê tanta celeuma? As placas estão aí, escolhas uma e te conforma.
Suspiros profundos, mãos na cabeça:
- Não quero a igreja da placas, elas já não dizem nada, são nauseantes, repulsivas, muitas delas exalam a podridão mística das coberturas idolátricas dos fantoches de Mamon.
Eis que outro se aproximou, e com nítida irritação retruca:
- Cale-se! Acaso atentas contra os ungidos? Recolha-se em seu nada ou venha ao sacrifício.
Olhos fitos, semicerrados, mas de tal modo penetrante que fez seu interlocutor baixar a vista:
- Não sabia que eram ungidos, nem parecem! Pois seus modos, seus feitos, suas falas, seus “evangelhos” de tão idênticos aos senhores e as coisas da terra, embaçaram minha visão que nem vi unção, embora tenha visto bastantes cifrões.
- Eis aí mais um frustrado! Cachorro morto! Chutai-o longe para não atrapalhar o culto – ameaçou um grupo indignado.
Corpo e indicador em riste, olhar firme e sem medo, a ponto de fazer recuar os salientes agressores:
- O cheiro fétido da rapina de vossos cultos enfastia-me o olfato, o vômito de vossas crenças inúteis embrulha-me o digestivo, o putrefato de seus sacrifícios enoja-me o espírito, a ganância torpe de vossa fé escandaliza o meu Deus.
- Cala-te!
- Cala-te!
- Cala-te!
Gritavam as turbas, os montes, as cavernas, os “crentes”, descrentes, os paletós e as gravatas…
Levantando a Bíblia acima de sua cabeça bradou:
- Não sou eu quem grita. Não sou eu quem brada. A Palavra vos acusa. A Palavra vos condena. A Palavra vos expõe. Os céus são testemunhas e até as pedras falarão por mim. A voz que lhes cortam é a mesma que os séculos não calaram, pois divina, eterna e poderosa ela é. E corta… Espírito – alma, juntas e medulas…
Alguém passando apressadamente, sandália de dedos e compras na sacola, olha com desprezo e ironiza:
- Já não basta tanta igreja e este besta criando drama. Veja, há uma logo ali, outra aqui e aquela lá. Vai-te! Pois em qualquer caminho é “amém igreja!”.
Caem-lhe os joelhos ao chão. Ergue os braços aos céus:
- Não! Não quero a igreja – metas e seus matemáticos pastores, pois suas ovelhas são números e não gente. Não quero a igreja – propósitos e seus pragmáticos pastores, pois suas ovelhas são frutos do estresse planejado. Não quero a igreja – engessada e seus pastores nostálgicos, pois suas ovelhas cultuam o passado. Não quero a igreja – empresária e seus pastores executivos, pois suas ovelhas são produtos de marca e grife. Não quero a igreja – negócio e seus pastores comerciais, pois suas ovelhas são mercadoria negociável e peças de estoque. Não quero a igreja – mídia e seus pastores estrelas, pois suas ovelhas são marionetes não pensantes. Não quero a igreja – feudo e seus pastores senhores, pois suas ovelhas são vassalas exploradas pelo medo. Não quero a igreja – mística e seus bruxos pastores, pois suas ovelhas são cegas a caminho do abismo. Não quero a igreja – quadrilha e seus pastores bandidos, pois suas ovelhas vítimas incautas.
E continuou…
- Parem! Parem! PAREM!!! SOCORRO!!!
Juntando as mãos dobrando o corpo, as lágrimas rolaram na face.
- Eu quero uma Igreja. Uma Igrejinha. Igreja – gente. Igreja – Corpo. Igreja – Vida e viva. Igreja que não se venda, que não se dobre, que não minta, que não blasfeme, que não negocie. Eu quero Igreja – Deus e não igreja – homem, mas que sendo Igreja – Deus, também seja Igreja – Homem. Eu quero a Igreja! Meu reino pela Igreja! Eu quero a Igreja do Reino, lavada no sangue do Cordeiro. Eu quero a Igre…!
Zás!
Zás!
Pedras rolaram em meio aos cânticos. Chutes vieram em meio a “mistérios”. Socos surgiram como milagres. Tapas soaram como “visões”. Cuspes jorraram em transes e sonhos. Pauladas desceram em atos proféticos. Pancadas caíram junto a versículos. Paletós e gravatas puxaram-lhes os cabelos.
O corpo inerte estendido no asfalto.
- Amém! Glóoooooooooooooooooorias!!!! – a turba bradou. E, depois, um por um, seguiu para os cultos de peito lavado e missão cumprida.
Então, um ateu, crendo, orou a Deus e tentou reanimá-lo.
Um cético creu, e trouxe-lhe um copo d’água.
Um católico quis chamar a polícia, mas temeu a turba.
E os que não dobraram os joelhos (alguém contou sete mil) socorreram-lhe a vida.
Enquanto isso, dois transeuntes que observaram toda cena, caminhando tranqüilos comentaram:
- Que vem a ser tudo isto?
- É mais um dos delírios dos santos.
E lentamente seguiram para as catedrais humanas.
Em Cristo, na Fé e no Caminho.
***
Fonte: Auxílio do Alto.
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Crente Esponja, Só Falta a Calça Quadrada
por: Jofre Garcia“Julgai todas as coisas, retende o que é bom”
(1ª Ts 5.21)
O discernimento é um dom proveniente de Deus, o que não significa dizer que o cristão, o converso não tenha que exercitá-lo como uma disciplina constantemente evolutiva em sua caminhada. Muito pelo contrário, o discernimento deve ser permanentemente desenvolvido, pois é por este dom que possuímos a capacidade de percepção dos elementos salutares e os nocivos que adentram na Igreja e nos edificam ou transtornam.
O discernimento funciona como um filtro por onde os germes infectos que circulam em torno procurando invadir a Igreja são identificados, sendo barrada sua entrada.
Porém, temos um problema!
O efeito esponja!
Pois a esponja vai absorvendo água ou qualquer líquido com sua sujeira e impureza, até chegar ao seu extremo de sua capacidade e no primeiro aperto espalhar seu excesso.
Este é um fenômeno muito comum em nosso universo evangélico onde as águas sujas e infectas das doutrinas exóticas e esdrúxulas encontram campo fértil e ardorosos defensores.
Sincretismos pagãos, contorcionismos teológicos, atos proféticos, “visões” vindas de fontes turvas e com propósitos duvidosos, movimentos evocativos de forças estranhas, línguas que manifestam distúrbios emocionais, doutrinas contrárias aos ensinos bíblicos sendo aplaudidas, multidões desesperadas em busca do reino deste mundo, mistura perigosa com o pior da política, mundanismo, idolatrias, etc.
E as súcias de crentes seguem empolgados os novos ídolos, ditos evangélicos, sem o menor pudor doutrinário.
Armada de textos descontextualizados (Não julgais – Mt 7.1; Quem não tiver pecados – Jo 8.7), os esponjas ameaçam aqueles que detectam os falsos ensinos e apologizam em favor das Sagradas Escrituras, mas não temem abraçar o “novo” e esdrúxulo caminho quilometricamente desviado da rota de Cristo.
Algumas velhas novidades que voltaram a ostentar imensa popularidade em nosso tempo:
Negação da cruz;
Recusa ao estreito e espinhoso caminho;
Descrença na existência real do inferno;
Negação a soberania de Deus;
Relativismo para com a Bíblia;
Renovação do misticismo exacerbado;
Culto a personalidade;
Feudalismo religioso;
Anti-Bíblia em favor das visões enfatuadas;
Estrelismo estratosférico;
Adoração a Mamom.
Mas, tudo é permitido desde os sorrisos plastificados, os achaques ufanos, os arroubos performáticos e a ostentação cinematográfica das conquistas ou pseudos milagres estiverem sendo caudalosamente derramados nas mídias sem fim, projetando uma imagem do que nunca foi não é e jamais será Caminho de Cristo.
Mas quem se importa?
“Quem creu em nossa pregação”
Bradava o profeta Isaias sob inspiração divina, ante o espetáculo do Servo Sofredor (Is 53.1), contrariando as expectativas de um Messias beligerante e doador de benesses ao bel-prazer do seu povo.
Há alguém que se importa?
Está tudo tão legal!
Somos tantos, e podemos até pressionar governos. Temos até um dia instituído nacionalmente, e podemos angariar recursos públicos para financiar nossos shows.
- Não é ótimo! Crente Esponja!!!!
- É sim Crentik! Rê rê rê rê rê rê rê…
Mas, Aquele que tem na mão direita as sete estrelas, de cuja boca sai uma espada afiada de dois gumes, e o rosto, brilha como o sol em sua força, diz: Conheço as tuas obras (Ap 1.16; Ap 2.2,9, 13, 19; Ap 3.1,8,15).
N’Ele, o Cristo que nos dá o discernimento e não o estado esponjoso.
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Jofre Garcia é Teólogo, Radialista, admirador de automobilismo. Edita o Blog Auxílio do Alto.
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A Graça In(Comum) e Algumas Questões
por: Jofre Garcia
A rotulada Graça Comum não pode ser usada como um mecanismo regulador de aceitação para adoração na Igreja (falo Igreja e não denominação) de qualquer expressão artística, produzida fora do que nos convém conceituar como “cristã”.
Também, os que são alvos da Incomum Graça ou Graça Especial, não podem se valer da misericórdia de Deus como um recurso para a demonização de tudo que se faz debaixo do sol, e que não se enquadra na definição “evangélica”.
É interessante que a discussão em torno da Graça Comum virou um entrincheiramento para posições antagônicas e que pouca reflexão, de fato, tem sido produzida, apenas o endurecimento das “teorias”.
Teorias? Sim!
Tendo em vista que levamos as discussões e os posicionamentos apenas para o fator das artes, e qualquer expositor da Palavra pode se ver “em maus lençóis” caso lhe convenha a citação de algum trecho literário, poético, musical, etc, que não seja de alguém que carrega a alcunha de evangélico. A questão fica apenas na arte, ninguém será questionado se utilizar dados científicos, tecnológicos, econômicos ou de qualquer outra natureza em seus sermões, até parece que a questão controversa da Graça Comum se dá em torno da malfadada capacidade humana de expressar sentimentos, pensamentos, emoções em forma artística.
Então…
Não se deveriam construir templos. Pois se usam métodos, cálculos e invenções que foram criados por “mundanos” que não visavam a glória de Deus, mas, apenas ganhar dinheiro. Não se deveriam usar o sistema bancário, e nem vou completar o comentário. Não se deveriam fazer uso dos automóveis, dos sistemas de som, dos métodos administrativos largamente usados nas igrejas. Não se deveria usar a bandeira Brasileira, pois esta carrega em si uma ostentação do ideal positivista de Augusto Comte: “Ordem e Progresso”. Não se poderiam cantar o Hino Nacional Brasileiro, nem a popularíssima “Parabéns pra você”. Ou o que é mais grave, não se poderia usar nem mesmo a seqüência das notas musicais, as quais são atribuídas ao monge católico Guido d’Arezzo, quando a Reforma Protestante ainda dormia o sono dos justos.
Mas, acontece algo interessante: nesses casos há um subterfúgio balizador: “tal objeto, agora, foi consagrado para ser usado para a glória do Senhor”.
Quem consagra?
Deus?
Poupem os meus cabelos brancos.
Todo talento, todo dom vem do Pai das Luzes.
Cansei de ver os ditos pregadores expositivos citarem mais os teólogos e suas posições, que na grande maioria dos casos basta-se a sua geração, do que citar os textos bíblicos. E o que vamos fazer para entender a mensagem do Novo Testamento se relegarmos ao limbo todo caldeirão cultural em que ele está inserido?
O que João combate ao escrever a sua narrativa do Evangelho e nas suas Cartas?
O que vamos dizer de Paulo, homem extremamente culto e que faz uso dos ganchos culturais existentes para apresentar o Evangelho de Cristo?
Durante o ministério de Cristo e na instalação da Igreja com o Livro de Atos e as diversas Cartas, não encontramos cerceamento da arte ou cultura em nenhum lugar, existe a premissa de que tudo seja para a glória de Deus.
E para a glória de Deus deve ser usado.
O que é a gloria de Deus?
Que glória possui o homem que dela Deus necessite? Ele é o Senhor da Glória!
Tudo o que fizermos deve ser voltado para o louvor do Nome do Senhor reconhecendo em cada coisa a sua glória. Ora, somente os que são alvo da Graça Especial é que possui tal entendimento, mas isso não indignifica quem reconhece no homem comum o talento artístico que o Senhor concedeu por sua graça. Ele, o artista, não usou esse dom com o devido propósito, mas, se algum pregador, escritor, teólogo usar tal citação, deve faze com tal propósito.
Alguns pontos nos Is:
Não se pode creditar o cristianismo exclusivamente ao simplismo. Ele não é uma revelação específica para os incultos, toda gente foi alvejada pela semeadura da Palavra, os mais simples responderam com uma maior aceitação, mas, cuidado!
O Evangelho não é uma apologia a estagnação, a acomodação nem a deseducação de um povo, pois quem tem fé caminha, progride, aprende, não para, segue sempre.
Muitos intelectuais se somaram ao cristianismo e contribuíram para que o próprio Novo Testamento pudesse ser construído literariamente (sabendo que Deus conduziu todo processo). Mas, cuidado! Tornar a mensagem cristã recheada de academismo é um pecado grotesco e que tem sido despejado do púlpito de muitas Igrejas.
Perceber, compreender, admirar a arte em nossa volta, mesmo que não seja “evangélica” é um dever nosso. Paulo asseverou: “Examinais todas as coisas, retendes o que é bom”. O que não se pode e criar uma atmosfera idolátrica em torno dos artistas em que reconhecemos um talento nato e admirável.
O temor do Senhor é o princípio da sabedoria. Portanto, com sabedoria, temor, amor e prudência, devemos construir a teologia de nossa geração, usando com cuidado citações, quando convier e dentro do contexto do louvo ao Nome do Senhor, reconhecendo a Sua glória.
Em fim, vivamos como novas criaturas em Cristo, mesmo num mundo pavoroso que jaz no maligno, mas não caminhemos em paranóia como se Deus não permitisse ao homem comum, por sua graça comum, construir coisas belas. Façamos a Palavra habitar em nós ricamente e, assim, sermos capazes de discernir o mundo a nossa volta.
Por que glorificar (servir) a Deus pode ser fazer sapatos e vendê-los a um preço justo, como disse Lutero.
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Jofre é teólogo, colunista do Arte de Chocar e escreve para o Auxílio do Alto.
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